“Depreciar quem pensa diferentemente, com todo respeito, é déficit civilizatório”

Autor: Adson Fernandes

safadoTudo que começa bem pode até acabar mal, mas quando algo começa mal dificilmente termina bem. O julgamento do chamado mensalão começou mal. A suprema corte decidiu efetuar o julgamento de crimes cometidos em 2005 e deixou de julgar crimes cometidos em 1998. Em qualquer país do mundo a ordem cronológica dos crimes pesa na escolha da data de seus julgamentos, portanto quem comete crime primeiro é julgado primeiro. Até porque quando o judiciário deixa de julgar fatos antigos e coloca na agenda fatos mais recentes, corre-se o risco de ver os crimes antigos serem prescritos. Como é o caso do Mensalão Tucano com a compra de votos do Eduardo Azeredo em Minas Gerais em 1998. Outro fato interessante é que o julgamento começou “coincidentemente” com o período eleitoral em agosto de 2012. Além do que o julgamento foi transmitido diariamente por canais de TVs ao vivo. Vale lembrar que tal medida até poderia ser vista como um avanço democrático, isso se não tivesse o Brasil uma mídia monopolizada e em sua maior parte a serviço de políticos. Fato é que em nenhum país do mundo, por mais forte que seja a democracia, julgamentos jamais foram transmitidos por canais de televisão. Assim o julgamento se deu em plena campanha política e a cada dia o Presidente do Supremo se fortalecia politicamente perante a opinião publicada e a pública carente de justiça. Ocorre que não demorou muito para que partidos vissem em Joaquim Barbosa um potencial candidato e as pesquisas de opiniões passaram então a trazer também o nome dele. O poder mexe com as pessoas e com ele não foi diferente, deixou se levar pelos resultados das pesquisas e aos poucos foi apresentada ao país a face autoritária do honesto ministro. Ele se envolveu em diversas calorosas discussões, ao vivo, brigou com Juízes e entidades e como Presidente impôs sua autoridade sem jamais ser sereno. Uma boa parte da população gosta e aplaude essas atitudes. Não demorou também para que ele virasse alvo de especulações e até mesmo sua vida particular passou a ser revelada. Participou de festas de políticos, saiu em jornais, em fotografias ao lado de candidatos e como um astro tirou fotos, a pedidos com admiradores. Dentre eles até um procurado da justiça brasileira, mas ele se quer conhecia o tal admirador. Virou alvo e chegou a prometer que na hora certa iria se vingar dos que o agrediam. No final do processo, mandou para cadeia em regime fechado julgados que deveriam ser presos em regime semiaberto e o fez em pleno feriado da República, afinal assim o simbolismo é maior e ele apareceria ainda mais nos noticiários. Por duas vezes suspendeu a sessão, quando os ministros davam a entender que votariam contrários a ele. A ideia era ganhar mais tempo e assim a mídia pudesse pressionar para que os ministros mudassem seus votos. Não adiantou porque os ministros a essa altura já tinham suas posições e bom juiz não se deixa influenciar pela mídia e muito menos pelos colegas da corte. Eles julgam de acordo com os seus entendimentos. Assim terminou de forma ridícula o mais politizado julgamento de todos os tempos na história brasileira. Os canais de televisão mostraram as cenas em que Joaquim Barbosa de forma autoritária tentava interferir no voto do Ministro Luiz Roberto Barroso a todo o momento. O interrompendo e o acusando de fazer um julgamento político, apesar de ser o próprio Joaquim o único Ministro a ter o nome como candidato nas pesquisas eleitorais, embora até agora ele negue que será candidato. Para mim isso é só questão de tempo e seria mesmo interessante assistir a um debate em que o atual Presidente do Supremo fosse questionado por outro candidato, certamente teríamos um debate bastante acalorado uma vez que Joaquim já demonstrou inúmeras vezes que tem o estopim curto demais. No meu entendimento a frase que resume perfeitamente todo esse processo veio do Ministro Barroso que sob um momento de ira e ataque do Presidente do STF, teve a sabedoria e serenidade para lhe dar a resposta mais apropriada para aquele momento e que serve de lição para nossas vidas. “Depreciar quem pensa diferentemente, com todo respeito, é déficit civilizatório”

Tenham todos uma ótimA SEMANA!

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  1. Volmar Scaravelli
    mar 26, 2014 - 03:07 PM

    Prezado Sr. Adson Fernandes,

    Simplesmente queria felicitá-lo pelo artigo “A corrupção não é de esquerda, nem de direita, ela é ambidestra” publicado no jornal A Semana. Para um povo dedicado ao trabalho mas que inflizmente não tem a cultura da leitura, e por ende, as poucas informações às quais tem acesso provem de meios de comunicação carregados de ideologia, é muito bom ler um artigo cabal e imparcial. Parabéns
    Volmar Scaravelli

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