SEC pede pagamento de multas e a restituição dos valores investidos

TELEXFREENo Brasil, a Telexfree é representada pela empresa Ympactus Comercial, de Vitória. Nos EUA, o grupo é composto por três firmas: Telexfree INC, LLC e Financial.

Em alerta pelo lucro fácil de até 200% ao ano prometido pela Telexfree, a justiça ordenou o fechamento imediato da empresa no país. Órgãos ligados ao governo americano afirmam que a companhia é uma da maiores fraudes financeiras do mundo.
Investigações da Securities and Exchange Commission (SEC) Comissão de Valores Mobiliários dos EUA apontam que a empresa arrecadou de investidores em diversos países mais de US$ 1,2 bilhão (R$ 2,7 bilhões). De acordo com relatório da SEC divulgado nesta terça-feira (15), a Telexfree usava o marketing multinível e a venda do VoIP como fachada para mascarar o esquema Ponzi.
Apurações do órgão mostram que entre a quantia de US$ 1,2 bilhão faturada pelo negócio, apenas US$ 238 milhões (R$ 547 milhões) foram construídos a partir da venda de VoIP. Ao testemunhar à SEC, James Merrill, presidente da Telexfree nos EUA, admitiu às autoridades que tinha pouco conhecimento sobre VoIP. Ele afirmou nunca ter atuado no setor.
E mesmo com o bloqueio da empresa no Brasil, em junho do ano passado, o relatório garante que a companhia continuou a recrutar brasileiros para a rede de Massachusetts. Os associados, em maioria, usavam endereços do Rio de Janeiro e de São Paulo. O responsável pelas apurações, o secretário do governo de Massachusetts, William Galvin, quer que a Telexfree tenha suas atividades encerradas. “Embora apresentada como mudança de paradigma em telecomunicações e publicidade, a Telexfree é meramente uma pirâmide velada e um esquema Ponzi que tem como alvo a comunidade trabalhadora brasileira-americana”, disse.
Ele solicita ainda que a empresa preste conta de todo o dinheiro obtido de forma fraudulenta, devolva todo os investimentos dos associados e que ainda seja penalizada com multas. As análises serão submetidas à Corte da SEC de e servirão para que denúncias nas esferas estaduais e federais, tanto administrativas quanto criminais, sejam feitas nos EUA.
No Brasil, a Telexfree é representada pela empresa Ympactus Comercial, de Vitória. Nos EUA, o grupo é composto por três firmas: Telexfree INC, LLC e Financial.
Apesar de serem entidades jurídicas diferentes, as empresas americanas e do Brasil atuam de maneira sobrepostas, conclui o relatório da SEC.
A autoridade acusa também de fraude os donos da Telexfree, Carlos Roberto Costa, Carlos Wanzeler e James Merrill. Também estão no inquérito o irmão de Wanzeler, Fábio Wanzeler, e a filha dele, Lyvia Wanzeler, mais Sanderley Rodrigues Vasconcelos e o americano Steve Labriola.
As avaliações da SEC foram divulgadas, um dia após Carlos Costa, em vídeo no YouTube, afirmar que a perseguição à Telexfree só existe no Brasil e que os EUA são um país sério por aceitar esse modelo de negócios.
Além do VoIP, a Telexfree tentou atrair investidores ao anunciar a compra de um hotel no Rio de Janeiro.
“Não fiquei milionário. Sou vítima”, diz Sann
Apontado no relatório do SEC como um dos integrantes do esquema Ponzi da Telexfree, Sanderley Rodrigues Vasconcelos diz ser apenas um divulgador da empresa e, assim como os outros associados, uma vítima do esquema. “O que me fez trabalhar na Telexfree foi saber que o advogado de outras empresas de marketing multinível aprovou o negócio e disse que ele é legal”.
Sann, como é chamado, foi considerado um dos primeiros milionários da Telexfree – informação que ele desmente. Em entrevista para A GAZETA, admite apenas ter ganhado muito dinheiro com o marketing multinível.
Ele também se defende das acusações de ser um dos mentores da Telexfree. “Quero deixar claro que não tenho nenhuma participação na empresa. Sou um divulgador. Sou uma vítima”, explica.
No relatório do SEC, Sann é descrito como uma pessoa que já teve experiências com uma outra fraude financeira em Massachusetts. Em 2006, a empresa dele, a Foneclub, foi fechada por causar prejuízo de mais de 1 milhão a 1.183 pessoas da comunidade brasileira nos EUA.
Ele também era dono de empresas no Espírito Santo, registradas como Phoneclube. “Nos Estados Unidos, a Justiça entendeu que eu não agi por mal. No Brasil, nunca cometi nenhuma irregularidade”, explica.

O relatório:

Pedidos da SEC
A denúncia solicita o fim das atividades da Telexfree, pede pagamento de multas e a restituição dos valores investidos por associados.

Esquema
Investigações mostram que a empresa faturava mais com o recrutamento do que com a venda de VoIP.

Hotel
Relatório afirma ainda que, além do recrutamento de divulgadores, a Telexfree usava o Tijuca Design Hotel, em construção, para atrair mais investidores.

Publicidade
A Telexfree prometia rendimentos para quem publicasse anúncio na internet. Segundo o relatório, a comissão é insustentável. Para pagar a todos os divulgadores só para postar anúncio, a empresa gastaria US$ 4 bilhões, sendo que movimentou menos de US$ 300 milhões com vendas de VoIP.

Sócio ganha mais R$ 7 milhões
Mesmo após o bloqueio das atividades e o congelamento dos bens da Ympactus, o diretor da companhia Carlos Roberto Costa recebeu de Carlos Wanzeler e de James Merrill US$ 3 milhões, o equivalente a R$ 7 milhões, segundo aponta o relatório da SEC nos EUA – correspondente no Brasil à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

As investigações encontraram ainda uma conta-corrente no exterior, em nome de um dos acusados, com saldo de US$ 12 milhões (quase R$ 28 milhões). O relatório afirma que não foi possível saber a procedência de todo o recurso, já que foram identificados apenas nove depósitos relacionados a bonificações da Telexfree no valor, cada um, de US$ 49 (R$ 112,7).

As apurações da SEC mostram também que os responsáveis pelo gerenciamento do esquema usavam dinheiro dos divulgadores para pagar despesas pessoais, inclusive contas de restaurantes, além de eventos, festas e shows.

Dados bancários da Telexfree nos Estados Unidos revelam que um dos donos da Telexfree, Carlos Wanzeler, recebeu US$ 7 milhões (R$ 16 milhões) e que outros US$ 12 milhões (R$ 27 milhões) foram transferidos da conta da empresa para outras companhias.

As movimentações milionárias da Telexfree nos Estados Unidos deixaram instituições financeiras em alerta. Algumas romperam contrato com a empresa em menos de dois meses.
elatório da SEC apresenta troca de e-mails entre diretores da corporação e gerentes de bancos no exterior. Uma das instituições chega a afirmar que nenhum banco pode aceitar o que a Telexfree se propõe e que o negócio é uma “batata quente”.

Conforme as apurações, as finanças da Telexfree não são compatíveis com a realidade da atividade. Entre 2012 e 2013, das 200 mil operações no site da empresa, apenas 20 mil foram relacionadas à venda de VoIP, serviço anunciado como o principal da empresa.

A empresa nos Estados Unidos, vendida como uma multinacional, tinha apenas sete funcionários. Do faturamento da empresa de 1,2 bilhão (R$ 2,7 bilhões), apenas US$ 120 mil (R$ 27 mil) foram usados para pagar salários dos empregados. O site da empresa, mostra o relatório, foi construído e gerenciado pela Ympactus, no Brasil.

Falência
No domingo (13), a Telexfree entrou com pedido de recuperação judicial em Nevada para evitar a falência das três empresas do grupo nos EUA: Telexfree INC, LLC e Financial. A dívida do negócio pode chegar a US$ 500 milhões (R$ 1,1 bi).

Na solicitação, a empresa exclui o nome dos divulgadores, estimados em um milhão de pessoas, para privilegiar 30 credores. Entre esses estão parentes e amigos dos sócios da Telexfree, como a esposa de Carlos Costa, Jozelia Sangali. Ela encabeça a lista de credores, tendo direito a US$ 1,3 milhão (quase R$ 3 milhões). No Brasil, o pedido de recuperação judicial da Ympactus foi negado três vezes.

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